A saga de Abraão e Sara em contexto vocacional – o nosso eu mais profundo
(Gênesis 11, 31 – 25,18)
Sebastião Catequista
A saga vocacional do casal Abraão e Sara vista na perspectiva da vocação e analisada com a chave sobre nossa identidade mais profunda (quem sou eu, quem somos nós) nos leva a pensar nossa própria história pessoal e que sentido lhe damos.
Abraão tem um dilema: ser pai. Talvez isso para nós seja algo natural e relevante, mas não para a cultura semita, cuja paternidade e maternidade tem uma outra dimensão significativa e mais profunda naquela cultura.
Olhando também para Sara, percebe-se que também ela tem seu dilema, porém, num contexto patriarcal, esse está consignado ao horizonte do seu esposo. E ambos são interpelados a viver uma jornada de fé: desinstala-se, sair, se aventurar, deixar certezas e seguranças…
Nas idas e vindas, Abraão que se ver movido pela promessa, em dado momento tem dúvidas, inseguranças, cria alternativas, se move num campo movediço. Sara, muito mais cética, também constrói alternativas. Cada qual com seu temperamento e papéis vivem experiências diferentes, porém com a mesma intensidade, singularidade e destino.
Na saga de suas histórias nas entrelinhas se desvela a condição do sentido de suas existências e do seu eu mais profundo. Suas inquietações e suas habilidades de como lhe deram com os conflitos do dia a dia em cada história da passagem bíblica, revela muito de sua condição interior, de suas angústias, de suas dúvidas, de sua fé. Entretanto, sua trajetória vocacional para além da paternidade e da maternidade natural transcendeu a própria materialidade dos fatos e lhes deu um nova condição: se tornaram pais espirituais do povo de Deus. Eis a sua trajetória vocacional.
Encontramos em sua própria saga um paradoxo para todo vocacionado em busca de sua vocação: deixa-se conduzir e persistir na sua busca por algo que o desvela e o defini na conta da Existência. Como Abraão e Sara somos tomados pela consciência do lugar de pertencimento e que tal lugar de certo modo nos ajuda a definir quem somos nós. A busca pela resposta “quem sou eu”, “quem somos nós”, também tem chão e contexto e este está impregnado e envolto do perfume da fé.
Não é muito difícil saber sobre nossa personalidade, gostos, preferências, hábitos, caráter e com o quê ou quem simpatizamos, lugares que frequentamos, etc, mas é muito mais difícil saber e responder algo que mexe com a nossa própria estrutura existencial. Nesse sentido toda jornada é única, irrepetível, ousada, duvidosa, oscilante, sem segurança, cujo domínio nos escapa das mãos. Por isso, tal jornada é feita na fé. Não uma fé que nos apresenta uma lista de crenças e seguranças, mas aquela fé cujo campo nos apresenta mais dúvidas e medos, mas incertezas cujo sol beira à meia noite…
A jornada abraâmica não é um padrão, não poderia sê-lo, mas serve como espelho onde nos vemos nas mesmas angústias e temos que partir, partir acreditando contra toda esperança. E é na caminhada que aos poucos vai se desvelando quem somos.
A nossa trajetória de vida anterior diz muito de quem nós fomos, no limiar desse novo caminho vocacional não sabemos mais quem somos, não é que perdemos as referências, é que perdemos as certezas. O que resta então? O caminho. O que vamos encontrar? Não sabemos! Contudo, o novo “Eu” vai aparecendo e talvez como na experiência paulina possamos dizer com os olhos da fé: não sou eu que vivo, há algo muito maior que me impulsiona a viver. E talvez seja isso que conte nessa jornada, porque como a experiência abraâmica, o natural se poder ver (eles tiveram o filho) mas, o transcendental (eles não viram), esse sim, possa está para além… de nós mesmos.
Saber quem somos e o que buscamos define a ordem de nossa existência e de como lhe damos com as coisas, com a vida, com as pessoas e com o tempo, ainda que este seja de ordem limitada como demostra-nos a história dessas personagens que por sua idade natural estava avançada.
“Quem sou eu” não é uma pergunta, mas uma jornada que nos desinstala do cotidiano e do trivial que fazemos no dia a dia. É uma busca incessante!
Por fim, a saga abraâmica constitui do ponto de vista da fé e do contexto vocacional, uma jornada profundamente espiritual de ordem existencial que como espelho nos provoca à fazermos também nós a nossa própria jornada.
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